Cada vez mais contas de Instagram sobre literacia financeira são eliminadas. Cada vez mais a liberdade de expressão depende de keywords e um algoritmo, quando o nosso palco são as redes sociais. Face ao estado atual do mundo, inúmeras teorias da conspiração surgem — algumas com validade, outras porque são a narrativa que mais serve a interesses pessoais.
Tenho visto, com muita tristeza, o trabalho de anos dos meus colegas de comunidade da literacia financeira a desaparecer em menos de nada. Pessoas como a Dama de Ouros, o Nuno Pimenta, o André Freitas, o Pedro Andersson, o Ser Riquinho, entre outras, a serem censuradas, expulsas de uma plataforma que alimentaram e onde investiram em ads, meramente pela enorme incompetência da Meta em distinguir “o trigo do joio”.
Recentemente, o Gustavo falou sobre esta censura da Meta. Como gestora de redes sociais e pessoa que está a par do mercado de trabalho, acredito que não será tanto uma censura propositada, mas um conjunto de fatores desafortunados:
- No início de 2025, a Meta demitiu cerca de 5% da sua força de trabalho, como parte de um “ano da eficiência” e de uma aposta estratégica na inteligência artificial – incluindo moderação de conteúdo e equipas de confiança/segurança
- Também no início do ano, a Meta eliminou os “verificadores de factos” internos e passou a trabalhar com fornecedores externos. Contudo, a Meta está a transferir cada vez mais a triagem e análise inicial para modelos de IA, como forma de reduzir custos e acelerar o processo.
Como é que funciona a moderação de conteúdos da Meta?
Deixo-vos uma explicação prática sobre como os modelos de IA da Meta participam na decisão de banir ou restringir contas:
Detecção automática por IA
Os sistemas da Meta usam modelos de machine learning para analisar:
- Texto (posts, comentários, legendas, DMs) → palavras-chave associadas a discurso de ódio, spam, fraude, manipulação.
- Imagens/vídeos → reconhecimento de nudez, violência, símbolos, marcas de água suspeitas.
- Comportamento da conta → frequência de posts, padrão de seguidores, origem de tráfego, uso de links externos.
Se algo parecer suspeito, o algoritmo marca a conta ou conteúdo.
Regras aplicadas automaticamente
A IA compara o que detetou com as Normas da Comunidade (Community Standards).
- Certos gatilhos resultam em remoção imediata (por exemplo, nudez explícita, incitação à violência).
- Outros entram em revisão automática → se a conta acumular várias infrações, pode ser suspensa ou banida.
Revisão humana (limitada)
Idealmente, quando alguém recorre de uma decisão, um moderador humano avalia o caso.
Contudo, devido ao volume gigantesco de conteúdo, muitas vezes a decisão nunca chega a ser revista por um humano — fica-se pela avaliação automática da IA.
Por que é que as contas sobre trabalho remoto e literacia financeira em Portugal podem ser banidas?
- A Meta tem tolerância zero a esquemas de investimento e fraude financeira.
- A IA muitas vezes não distingue entre:
- Conteúdo de educação financeira legítima (ex.: explicar como investir na bolsa, usar um PPR, gerir dívidas)
- Conteúdo de promessas de enriquecimento rápido ou esquemas de pirâmide.
- Resultado: perfis que falam de “dinheiro, investimentos, trading, rendimento extra, side hustle, salários” são facilmente etiquetados como de risco → levando a suspensões automáticas.
Além da análise da IA, o comportamento da comunidade também influencia:
- Se um post recebe muitas denúncias de utilizadores (mesmo que seja só porque alguém discorda ou não gosta do tema), o algoritmo aumenta o “nível de risco” desse perfil.
- Se houver repetição de denúncias, a conta pode entrar em shadowban (alcance reduzido sem aviso) ou até ser suspensa preventivamente.
- O problema é que, no caso de literacia financeira, alguns conteúdos — mesmo corretos e educativos — podem ser denunciados por pessoas que os confundem com spam, esquemas ou publicidade enganosa. Ou então, o Gustavo poderá ter alguma razão. Ou não. Não sabemos.
Problema principal
O sistema é mais punitivo que preventivo: prefere banir “em excesso” a deixar passar fraude real.
- Isto gera falsos positivos (contas legítimas removidas).
- A revisão humana é limitada e lenta.
- O recurso nem sempre funciona, especialmente em mercados pequenos como Portugal.
O que podes fazer para evitar ou minimizar o risco de ficar sem conta?
Independentemente de seres um “finfluencer” ou simplesmente alguém que comunica sobre o seu negócio nas redes sociais, estas dicas podem ser úteis para não veres todo o teu trabalho a desaparecer.
Cuidado com palavras gatilho
Evita usar em demasia termos que a IA associa a fraude/“get rich quickly”, como “ganhos financeiros”, “enriqueça rápido”, “segredo dos milionários”, “multiplique o seu dinheiro”, “renda passiva”, “invista já”, “podes ganhar X com investimento Y”, “rendimento extra”, “dinheiro passivo”, entre outros. Evita também mostrar os teus resultados ou portfólio – a Meta pode associar isso a esquema fraudulento.
Prefere linguagem educativa e neutra: “gestão de poupança”, “estratégias de investimento de longo prazo”, “planeamento financeiro”, “como funcionam os PPR em Portugal”.
Formatação dos posts
- Evita usar caps lock + emojis de dinheiro repetidos 💰💰💰.
- Usa infográficos, tabelas, storytelling pessoal → a IA interpreta como conteúdo educativo.
- Coloca sempre contexto: “este conteúdo é informativo, não constitui aconselhamento financeiro”.
Links externos e landing pages
- Links encurtados (bit.ly, tinyurl) levantam alertas → usa sempre o domínio próprio.
- Certifica-te de que a landing page é clara, com informação legal e contactos reais.
- Transparência reduz a perceção de risco.
Evita comportamentos de spam
- Não publiques em massa (10+ posts/dia).
- Evita mensagens automáticas iguais para muitos perfis (atenção ao uso do ManyChat!)
- Seguir/deixar de seguir em escala → pode ser sinal de bot.
Provas de legitimidade
- Mantém bio clara: “Projeto de educação financeira”, “Associação sem fins lucrativos”, “Consultoria certificada pela CMVM/Ordem dos Contabilistas”.
- Inclui rostos reais (fotos da equipa) e não apenas gráficos.
Apelações e recursos
- Se fores bloqueado, recorre sempre → e explica que o conteúdo é educativo.
- Anexa links institucionais (ex.: Banco de Portugal, CMVM, ASF) para reforçar credibilidade.
Estratégia multicanal
Nunca dependas só da Meta (IG/FB). Mantém também:
- Newsletter própria (Mailchimp, MailerLite, Substack).
- Perfil no Tiktok ou similares.
- Canal no YouTube.
- Grupo no WhatsApp/Telegram.
Assim, mesmo que haja bloqueio temporário, não perdes toda a comunidade.
A crescente dependência da Meta de sistemas de inteligência artificial para moderar conteúdos trouxe ganhos de escala, mas também expôs limitações evidentes. No caso da literacia financeira e do trabalho remoto, muitos perfis e criadores com um trabalho muito útil e digno acabam por ser penalizados, não por promoverem esquemas fraudulentos, mas por utilizarem terminologia facilmente confundida com promessas de enriquecimento rápido.
Evitar palavras gatilho e optar por uma comunicação educativa e transparente é hoje fundamental para reduzir o risco de bloqueios automáticos. Não dependermos apenas da Meta para comunicar e chegar às pessoas, também.

